domingo, 10 de outubro de 2010

Do sublime vazio do vento...

Desalinhando os cabelos, fazendo flutuar a poeira do canto da rua, ele veio entornar a leveza ao meu redor. Na medida em que caminhava, o vento deslizava no meu rosto, movendo, no seu curso desajeitado, os corpos leves dos casacos, das folhas, dos papéis pelo chão. Fui atravessando em direção contrária a dele, enfrentando-o, enquanto escorria no meu corpo sua força atmosférica, suave, tão cheio de ar de um sublime vazio que tive que encher-lhe de palavras para que ele as levasse e as espalhasse como numa manhã de sol de primavera.
Elisa Morsel

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O intrigante mundo insignificante da vida

Sentada no bidê seus olhos escorriam pelo tapete do banheiro. O vermelho e o azul das flores pálidas são os atalhos para seus devaneios. A pressa da formiga, a eterna serva, a enerva, e dá o movimento ao pequeno-grande espaço.
“Vou matá-la!!!” “De onde ela veio para aqui atravessar?” “Se chegou por aqui, no banheiro, imagina o que aquelas patinhas carregam?” “Germes e bactérias e tudo aquilo que não consigo imaginar, porque imaginando vou tendo mais asco de estar ali, olhando pra ela, passeando sobre o tapete...” “Mas, matá-la, só vai consagrar a minha superioridade e nada mais. Meu dia continua e o dela não.” “Mas vale a pena a vida dela? Uma chinelada resolveria a questão...”
E não resolveu... ela continuou com a dúvida: quem era ela?
Elisa Morsel

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cinzas

Depois de se sentir confuso e vazio, ele começou a rascunhar aquilo que lhe perturbava. Antes era preciso acender mais um cigarro. Acendia, assim, mais uma promessa de parar de fumar após o derradeiro. Mas havia uma justificativa convincente. Passava uma noite péssima, em claro, à espera do telefonema dela. Ele precisava contar-lhe:

"Fiquei ruminando o que você me disse. Ao longo desses anos pensei várias vezes em nós, em situações de viver aquilo que nos
perturba e une. Como também pensei naquilo que me afasta de você. A minha inconstância contigo não é algo proposital. O que sinto por você é tão forte e estranho que resiste ao tempo. ‘Forte’ porque é dotado de uma força misteriosa e visceral. ‘Estranho’ porque não sabendo ao certo o que é isso, está sempre em ‘suspensão’ e volta e meia toma os meus sentidos. Ou porque não foi vivido o suficiente para esgotar-se em si, ficando, assim, esse mistério residual".


As cinzas vão polvilhando a folha de papel. Cada tragada, novas marcas. Ele a espera. Sempre a esperará. Ele só não sabe até quando. Enquanto isso, o seu último cigarro se apaga.

O retorno



Hoje aqui a cidade voltou a se tornar aquilo que era, nublada e chuvosa... me bateu uma saudade daquilo que nem vivi... estranho... às vezes penso demais, será que vai dar tempo para viver tudo isso? Por enquanto, escrevo... escrevo... escrevo...
Escrever é como chegar até você. É compensar a ausência de ti e de mim.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Pingo de chuva sobre a sua pele

Pingo de chuva que cobre, desliza e cai.
Vou seguindo contornando cada gota.
Sua pele é superfície da matéria.
Matéria molhada.
Umedeço-me.
A chuva cai e vai.

Elisa Morsel

sábado, 30 de janeiro de 2010

Algo acontece

Algo acontece...

Não sei te dizer bem o quê... Minto. Algo eu sei. Ou penso que sei.

Mas, nem sei se vale a pensa dizer-te... o silêncio diz (ou melhor, sussurra e grita) e o tempo fará a sua parte, como assim sempre o cabe fazê-lo... é a vida...

Hiato



Por contraste, visto nos olhos dela, ele percebeu a finitude de seu mundo. Lá onde as pessoas não se perguntam o que querem ou que desejam. Apenas vivem as circunstâncias da vida, sem determinação ou ambição que lhes possam acarretar qualquer tipo de esforço.

Desejos óbvios

Costumo prever o meu dia com os primeiros sinais de êxito. Se aquilo que desejo não acontece é porque naquele dia não é o “meu dia”. Quando o é, o acaso favorece as ações por mim determinadas e evocam e até confirmam a minha singularidade. Lógica egocêntrica e besta essa. Poderia confirmá-la até morrer. Lá no fundo guardo a esperança do mistério da morte e da minha imortalidade. Haver mistério é melhor que saber, não? Ainda mais para o caso do “fim.” Mas antes de escrever isso, pensei no título deste post “desejos óbvios”, minha mente e meus dedos, me deram uma rasteira e me fizeram registrar isso. Talvez porque se encaixa com o que eu queria dizer: interpretar os acontecimentos ocorridos no nosso dia, mais que método é um desejo óbvio de singularidade. O outro é aquele duplamente óbvio, o desejo por outrem. Hummm e como venho desejando. E dou razão à Joana, na sua luta silenciosa, entre coisas e pensamentos, há outro personagem, ou personagens, os desejos da pele.

(...)

Fiquei na expectativa da sua ligação. E olha que ela nem me chama tanto à atenção. Marina é meiga e razoavelmente bonita. Nada além disso. Não há conversa profunda entre nós. Sua superficialidade me incomoda, às vezes, porque tenho que reciclar os mesmos temas das nossas conversas repetidamente. Só com um pleonasmo vicioso para expressar esses momentos. Ainda bem que o chopp é gelado e os goles frequentes. Mesmo assim, saio com ela. Seu conservadorismo é irritante. Mas ela tem um charme incrível ao olhar. Isso me satisfaz e me faz imaginá-la em outras posições. Porém, não suficiente para incitar qualquer iniciativa. Talvez a veja como uma TV, um ato passivo de se olhar, chato e sem graça, que muitas vezes continuamos olhando e imaginando.

Otávio Drummond

Luta silenciosa

“Sinto uma solidão mentalmente acompanhada”. Pensava Joana ao olhar pra garrafa d’água sobre a mesa. Queria concentrar-se para finalizar o seu trabalho da faculdade. Mas não conseguia. Tudo lhe exigia atenção. A garrafa, seus livros espalhados pela mesa, seu celular, sua bolsa e uma folha em branco sobre a mesa. Sentia-se efervescente e queria um motivo qualquer para sair dali e deixar sua mente se expandir. E perder-se por pensamentos fugazes, vagueando pelo mero pensar. Passados alguns minutos após deter-se a cada objeto que seus olhos alcançavam, ela escreveu o que sentia no caderno. Depois, insatisfeita, arrancou a folha com a mesma brutalidade que escrevera. Amassou-a e, após outra distração, esqueceu a bola de papel que havia se transformado o seu pensamento sobre a mesa. Eu achei em seguida e ri da ironia: estar numa biblioteca não pressupõe estudar e se concentrar. Ao contrário. Há uma luta silenciosa entre coisas e pensamentos que não vale a pena ser registrada.

Elisa Morsel

sábado, 9 de janeiro de 2010

A confissão - retrato em movimento

Após o trânsito de volta, cansado, ele debruça-se sobre seu caderno, sob uma luz prontamente direcionada, como um motivo para um respiro à lápis:
"Procurando estabelecer um equílibrio psíquico, após um ano difícil, revelador e permeado por situações-limite, busco fazer uma auto-análise, como um caminho necessário e essencial para a manutenção de um sentido para a minha vida. Durante esses últimos anos, fiz escolhas não pensadas, derivadas da contingência das situações que me faltou a mais primária das reflexões. Por que 'não pensadas'? Talvez porque essas escolhas foram motivadas por um (redundante) egoísmo ignorante alimentado pela minha beleza e pela minha convicção de singularidade. Misturado a isso havia em mim vícios de meu contexto familiar que, ao longo dos anos, tornaram-se verdadeiros obstáculos para o meu auto-conhecimento e crescimento:a indolência, a ansiedade e a falta de concentração (esse último, provavelmente, resultado desses dois vícios). Acrescento à lista, a precária formação e a perversidade ocasionadas por ambientes sociais carentes de uma educação formal adequada, em que habilidades e competências mínimas, como escrever e falar, são adquiridas devido ao esforço pessoal. Estaria aí, atribuindo uma interpretação: pessoas e/ou grupos com educação formal qualificada realizam, com maior frequencia, ações orientadas racionalmente? Não. Isso é uma falácia! O que expresso em minha confissão é que uma série de fatores se relaciona, diretamente, com os meus atuais sentimentos de angústia. "Angústia" ocasionada por um longo processo de obliteração das razões últimas que me levaram a escolher. Heidegger diria que a angústia é a condição essencial para a consciência de existir. Nesse processo de pensar, aqui começa, por eu não ver outra saída, esse despertar tardio, ora confuso, ora obscurecido pelo desejo do sentir".
O ponto final encerra sua autoconfissão e inicia sua busca por uma experimental cura caseira/literária. Fecha o caderno. Acende um cigarro, dá um gole de vinho... pensa em como qualificar o que sente e... O celular toca. É Joana.