terça-feira, 22 de março de 2011

Para você, Cisne Negro



Após alguns meses Octávio a reencontrou coincidentemente na fila do cinema. Foi um daqueles dias que as coincidências se refutam ao acaso. Joana cravou os olhos na direção dos dele. Momento de confirmação de que não lhe sobrava nenhum resquício de sentimento. Havia um vazio como das noites secas da capoeira. Restava uma memória estranha a eles, mas em comum, que parecia perecer na estante fria de um quarto escuro. Não sobrava nada de algo que parecia ser forte, mas que se esgotou – imaturo e caduco – e perdeu-se quando ela havia desvairado seu rumo no efêmero lascivo. Joana provou a corrosão de seus instintos. Profanou seu templo corpóreo para fazê-lo dele uma experiência radical de vida. Perdeu-se. Embriagou-se. Sentiu a força de seus quadris contraídos em muitas mãos sedentas. Nessa fricção da carne, ela foi algoz e vítima do machismo cínico dos super homens. E dela mesma. Foram muito bons aqueles instantes de gozo e morte. Aspirou seu desejo numa opção desesperada por sentir. Era tarde. Não havia lhe sobrado nada. O reflexo do rosto de Octávio em sua retina não ia além de uma imagem opaca. Joana parecia gasta e velha, embora com tão pouca idade. É provável que ela tenha abusado da sorte, de sua retórica e de seu sex appeal.
(...)
Após a última cena do filme “Cisne Negro”, Joana dá-se conta que as alucinações da personagem Nina Sayers pareciam inversamente com as suas, mas em circunstâncias diferentes. Pois Joana não havia se dedicado a nada em sua vida. Tudo que começava, abandonava. Algo impossível para uma bailarina brilhante, embora fria como assim o era Nina. Na carinha de porcelana obstinada pela perfeição, seu avesso, sua porção Tânatos, repercutia a ambigüidade alucinada de suas neuras. A tragédia de Nina, que no final morre para sentir, e de fato liberta-se, é o contrário de Joana. Joana sentiu, mas abusou dos instantes sagrados do desejo. Quis repetir incessantemente aquilo que o diminuto da dose o é porque se merece pouco para saber o quanto é significativo.
O Cisne Negro se foi depois de tanto que se mostrou. Antes de bater as asas cravou seu bico no coração de todos, destilando seu encanto fúnebre pelos quatro cantos. Agora busca outro público e corações para seduzir e abandoná-los compulsivamente.
Joana foi embora e perdeu-se no corredor escuro da sala. Sua sombra foi a última a ser vista.
Octávio pegou seu casaco e levantou-se resignado. O encanto havia quebrado. Era o fim.

Elisa Morsel