quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sobre a felicidade...


"A felicidade não é o alcance do maior nível de satisfação, mas é extrair da relação com o outro a estranheza da nossa condição existencial - assim, é a pulsação maior da vida: a curiosidade nascida com o outro e conosco."
Em algum lugar em 23° 32' 52" S 46° 38' 09" O.Em 07 de outubro de 2009.
Elisa Morsel

terça-feira, 22 de março de 2011

Para você, Cisne Negro



Após alguns meses Octávio a reencontrou coincidentemente na fila do cinema. Foi um daqueles dias que as coincidências se refutam ao acaso. Joana cravou os olhos na direção dos dele. Momento de confirmação de que não lhe sobrava nenhum resquício de sentimento. Havia um vazio como das noites secas da capoeira. Restava uma memória estranha a eles, mas em comum, que parecia perecer na estante fria de um quarto escuro. Não sobrava nada de algo que parecia ser forte, mas que se esgotou – imaturo e caduco – e perdeu-se quando ela havia desvairado seu rumo no efêmero lascivo. Joana provou a corrosão de seus instintos. Profanou seu templo corpóreo para fazê-lo dele uma experiência radical de vida. Perdeu-se. Embriagou-se. Sentiu a força de seus quadris contraídos em muitas mãos sedentas. Nessa fricção da carne, ela foi algoz e vítima do machismo cínico dos super homens. E dela mesma. Foram muito bons aqueles instantes de gozo e morte. Aspirou seu desejo numa opção desesperada por sentir. Era tarde. Não havia lhe sobrado nada. O reflexo do rosto de Octávio em sua retina não ia além de uma imagem opaca. Joana parecia gasta e velha, embora com tão pouca idade. É provável que ela tenha abusado da sorte, de sua retórica e de seu sex appeal.
(...)
Após a última cena do filme “Cisne Negro”, Joana dá-se conta que as alucinações da personagem Nina Sayers pareciam inversamente com as suas, mas em circunstâncias diferentes. Pois Joana não havia se dedicado a nada em sua vida. Tudo que começava, abandonava. Algo impossível para uma bailarina brilhante, embora fria como assim o era Nina. Na carinha de porcelana obstinada pela perfeição, seu avesso, sua porção Tânatos, repercutia a ambigüidade alucinada de suas neuras. A tragédia de Nina, que no final morre para sentir, e de fato liberta-se, é o contrário de Joana. Joana sentiu, mas abusou dos instantes sagrados do desejo. Quis repetir incessantemente aquilo que o diminuto da dose o é porque se merece pouco para saber o quanto é significativo.
O Cisne Negro se foi depois de tanto que se mostrou. Antes de bater as asas cravou seu bico no coração de todos, destilando seu encanto fúnebre pelos quatro cantos. Agora busca outro público e corações para seduzir e abandoná-los compulsivamente.
Joana foi embora e perdeu-se no corredor escuro da sala. Sua sombra foi a última a ser vista.
Octávio pegou seu casaco e levantou-se resignado. O encanto havia quebrado. Era o fim.

Elisa Morsel

domingo, 10 de outubro de 2010

Do sublime vazio do vento...

Desalinhando os cabelos, fazendo flutuar a poeira do canto da rua, ele veio entornar a leveza ao meu redor. Na medida em que caminhava, o vento deslizava no meu rosto, movendo, no seu curso desajeitado, os corpos leves dos casacos, das folhas, dos papéis pelo chão. Fui atravessando em direção contrária a dele, enfrentando-o, enquanto escorria no meu corpo sua força atmosférica, suave, tão cheio de ar de um sublime vazio que tive que encher-lhe de palavras para que ele as levasse e as espalhasse como numa manhã de sol de primavera.
Elisa Morsel

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O intrigante mundo insignificante da vida

Sentada no bidê seus olhos escorriam pelo tapete do banheiro. O vermelho e o azul das flores pálidas são os atalhos para seus devaneios. A pressa da formiga, a eterna serva, a enerva, e dá o movimento ao pequeno-grande espaço.
“Vou matá-la!!!” “De onde ela veio para aqui atravessar?” “Se chegou por aqui, no banheiro, imagina o que aquelas patinhas carregam?” “Germes e bactérias e tudo aquilo que não consigo imaginar, porque imaginando vou tendo mais asco de estar ali, olhando pra ela, passeando sobre o tapete...” “Mas, matá-la, só vai consagrar a minha superioridade e nada mais. Meu dia continua e o dela não.” “Mas vale a pena a vida dela? Uma chinelada resolveria a questão...”
E não resolveu... ela continuou com a dúvida: quem era ela?
Elisa Morsel

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cinzas

Depois de se sentir confuso e vazio, ele começou a rascunhar aquilo que lhe perturbava. Antes era preciso acender mais um cigarro. Acendia, assim, mais uma promessa de parar de fumar após o derradeiro. Mas havia uma justificativa convincente. Passava uma noite péssima, em claro, à espera do telefonema dela. Ele precisava contar-lhe:

"Fiquei ruminando o que você me disse. Ao longo desses anos pensei várias vezes em nós, em situações de viver aquilo que nos
perturba e une. Como também pensei naquilo que me afasta de você. A minha inconstância contigo não é algo proposital. O que sinto por você é tão forte e estranho que resiste ao tempo. ‘Forte’ porque é dotado de uma força misteriosa e visceral. ‘Estranho’ porque não sabendo ao certo o que é isso, está sempre em ‘suspensão’ e volta e meia toma os meus sentidos. Ou porque não foi vivido o suficiente para esgotar-se em si, ficando, assim, esse mistério residual".


As cinzas vão polvilhando a folha de papel. Cada tragada, novas marcas. Ele a espera. Sempre a esperará. Ele só não sabe até quando. Enquanto isso, o seu último cigarro se apaga.

O retorno



Hoje aqui a cidade voltou a se tornar aquilo que era, nublada e chuvosa... me bateu uma saudade daquilo que nem vivi... estranho... às vezes penso demais, será que vai dar tempo para viver tudo isso? Por enquanto, escrevo... escrevo... escrevo...
Escrever é como chegar até você. É compensar a ausência de ti e de mim.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Pingo de chuva sobre a sua pele

Pingo de chuva que cobre, desliza e cai.
Vou seguindo contornando cada gota.
Sua pele é superfície da matéria.
Matéria molhada.
Umedeço-me.
A chuva cai e vai.

Elisa Morsel