sábado, 9 de janeiro de 2010

A confissão - retrato em movimento

Após o trânsito de volta, cansado, ele debruça-se sobre seu caderno, sob uma luz prontamente direcionada, como um motivo para um respiro à lápis:
"Procurando estabelecer um equílibrio psíquico, após um ano difícil, revelador e permeado por situações-limite, busco fazer uma auto-análise, como um caminho necessário e essencial para a manutenção de um sentido para a minha vida. Durante esses últimos anos, fiz escolhas não pensadas, derivadas da contingência das situações que me faltou a mais primária das reflexões. Por que 'não pensadas'? Talvez porque essas escolhas foram motivadas por um (redundante) egoísmo ignorante alimentado pela minha beleza e pela minha convicção de singularidade. Misturado a isso havia em mim vícios de meu contexto familiar que, ao longo dos anos, tornaram-se verdadeiros obstáculos para o meu auto-conhecimento e crescimento:a indolência, a ansiedade e a falta de concentração (esse último, provavelmente, resultado desses dois vícios). Acrescento à lista, a precária formação e a perversidade ocasionadas por ambientes sociais carentes de uma educação formal adequada, em que habilidades e competências mínimas, como escrever e falar, são adquiridas devido ao esforço pessoal. Estaria aí, atribuindo uma interpretação: pessoas e/ou grupos com educação formal qualificada realizam, com maior frequencia, ações orientadas racionalmente? Não. Isso é uma falácia! O que expresso em minha confissão é que uma série de fatores se relaciona, diretamente, com os meus atuais sentimentos de angústia. "Angústia" ocasionada por um longo processo de obliteração das razões últimas que me levaram a escolher. Heidegger diria que a angústia é a condição essencial para a consciência de existir. Nesse processo de pensar, aqui começa, por eu não ver outra saída, esse despertar tardio, ora confuso, ora obscurecido pelo desejo do sentir".
O ponto final encerra sua autoconfissão e inicia sua busca por uma experimental cura caseira/literária. Fecha o caderno. Acende um cigarro, dá um gole de vinho... pensa em como qualificar o que sente e... O celular toca. É Joana.

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